Gravata - Tira de tecido estreita e longa, que se usa com um nó próprio como ornato à volta do pescoço.
Ornato - adorno, enfeite, ornamento.
Tenho vindo a reparar na liberalização da estética da gravata... surpreendo-me com a forma, mais ou menos criativa e inteligente, com que os gestores de imagem gerem este suposto adorno.
Nos dias de hoje há-as de cores atrevidas, (rosinha, lilás, verdinho água, etc), desenhos sugestivos, decorando grupos em pretensa sintonia ou dando o destaque pretendido a um só indivíduo.
Mas a mim não me enganam... eu não consigo ver na gravata um adorno; um adorno usa-se para enfeitar, embelezar, seduzir, alegrar ou outras hípóteses no sentido de melhorar a imagem e libertar a personalização criativa que cada um possa, ou queira, fazer do seu "retrato".
Um adorno ou ornamento usa-se por opção individual, é um toque criativo, é uma prenda que nos oferecemos, uma futilidade útil, porque é um cuidado, um mimo , uma atenção que temos para connosco e isso é bom, faz bem à auto estima de quem o usa!
A GRAVATA, então, é coisa que me ultrapassa; não lhe encontro características de adorno ou ornamento... não é divertido nem criativo, não liberta nada de bom, antes pelo contrário, interpreto-a como uma sujeição, uma submissão, um carneirismo que só se explica pela existência de um pacto silencioso e ancestral, que pretende distinguir a casta mais elevada das nossas sociedades capitalistas.
É desconfortável, sobretudo no Verão, "estrafega", enforca, diminui a sensação de liberdade, digo eu , que nunca a usei, é só de olhar que me vem este desconforto, e duvido que me sujeitasse a usar... porque o pacote não traz só uma gravata , é toda uma hierarquia de concessões, que passa pela simbólica corda ao pescoço. É como ir à tropa... certas imposições não me imagino mesmo a acatar, nem que chovessem canivetes!
E, como se não bastasse, é IMPOSTA, OBRIGATÓRIA, em determinados contextos sem dúvida um símbolo, uma marca de aceitação do senso comum numa área muitíssimo pessoal: aquilo que vestimos, e ainda mais grave, os "ornamentos" que escolhemos, a nossa relação com o espelho, que, sendo assim, sujeita um indivíduo a olhar para si num último relance antes de sair para o mundo, e ver-se como a socieadade, a empresa ou o patrão exige que ele se apresente... um exército de uniforme cinzento, ou pelo menos amorfo, sem cor, com a camisinha chata com tanto botão, colarinho, punhos, casacos, calçinhas vincadas e a cereja em cima do "pastelão"... a gravata que, num grito de ESTOU AQUI, alguns escolhem usar com um toque de cor!
Pronto, não quero com isto chatear ninguém, até porque muitos, se calhar, tiveram já de ultrapassar este conflito e adaptar-se ao inevitável... e todos, no dia a dia, temos mesmo de engolir uns quantos sapos... cada um os seus... mas que a gravata me inquieta e tira do sério é verdade... esse sapo, não é para mim!