quarta-feira, abril 23

Suor e purpurina

Num dia lá longe... na lonjura da minha infância... guardo um circo enorme repleto de uma multidão de gente escondida pela escuridão que só a arena ilumina; um cheiro que não me é familiar preenche o espaço de medos e distâncias... senão fosse a agitação própria das crianças e dos adultos no frufru de encontrarem o seu lugar, eu diria que qualquer evento assustador estava iminente... o cheiro dos animais enclausurados, das naftalinas entranhadas nos velhos e, pretensamente imponentes, veludos e acetinados tecidos, corroidos pelo tempo e pelo uso... e, a arena... a arena coberta de uma areia irreal, porque nunca sentira o calor do sol, a areia onde os animais da selva se entristecem no decorrer dos seus anos de cativeiro, eles que nunca fora à praia e lembram outros lugares frondosos que jamais visitaram e jamais visitarão, mas que lhes pertence por herança e está-lhes no sangue, e na saudade!
É nessa areia triste, onde cada um vem carpir o seu momento de glória, que tudo se passa.
O meu momento foi de trapezistas, homens e mulheres de idade incerta, corajosos pássaros voadores que entre suores e purpurinas se atiram aos braços uns dos outros, como se FALHAR não existisse... e nós de susto no olhar, ali ,na plateia, de respiração suspensa, o coração a saltar a cada salto, e o baloiço para trás e para a frente, as mãos abertas na certeza do agarrar as outras, que vêm no desespero e na certeza de outras estarem lá... como se certezas houvesse... e nós ali, ansiosos por explodir em salvas de palmas que os tragam seguros para baixo... para baixo... para o algodão doce:- São dois? Aqui estão, um para a menina outro para o menino... são cinco tostões faxavor... ! - Quatro bilhetinhos? Aqui estão eles, são na plateia três, na coxia como pediu... está quase a começar, dez escudos sim senhor... estamos quase a começar, daqui a cinco minutinhos... é entrar... é entrar....
Naquele dia de que não me lembro, qualquer coisa correu mal... foi no coliseu, tudo mais controlado, mais fino... nessa altura as "camas elásticas" não seriam obrigatórias, ficou-me apenas a sensação de que, entre sons abafados pelo espectáculo, que não pode parar, um emaranhado de pessoas atarantadas, num espaço de recolhimento e sombra, entre o disfarce do horror e o pânico do mal que já passou irremediavelmente para a realidade, um vazio suspenso sobre nós um público incrédulo que o barulho das luzes e da agitação do "número" que logo apareceu, tentando a custo cativar a atenção da plateia... é certo que com os joelhos a tremer de desistência e o coração que também partira dentro da ambulância com aquela que, se ouvia dizer entre murmúrios e incertezas: - Era a mais novinha, aquela trapezista com o tule azulinho, tão loirinha, tão jovem... que se ponha boa depressa ou se tiver que ser ... que Deus a guarde...
Esta ida ao circo ficou-me na memória com sombras de grande tristeza e medo de lá voltar, como se ao fazê-lo tudo se repetisse... e ninguém para me confirmar que isto se passou realmente e que eu estive lá.. talvez os adultos quisessem apagar das memórias esse dia em que, levar os filhos ao circo não fosse um retrato feliz, de palhaços e cavalinhos, algodões doces e salvas de palmas... muitas e ruidosas salvas de palmas...

18 comentários:

Carlos disse...

Olá Inês

Obrigado pela descrição do circo... Admiro os trapezistas… do nosso circo (aqueles que todos os dias fazem o espectáculo para alegria dos outros, a sua tristeza e infelicidade não interessa, desde que o espectáculo se faça e a produtividade económica ao serviço do “escritório” se mantenha…
A trapezista de azul, ainda é a mesma... Só os palhaços mudaram e hoje o circo é o de Roma de "César" (aquele que incendiou a cidade) e a Respublica (a coisa pública). Mas e as feras?!!! César soltou-as e elas andam por aí, cuidado e estejam alerta... os mártires são os mesmos, pessoas humanas e que quase nunca sabem porque são mártires…

Beijos Inês
Carlos Rebola

Margarete da Silva disse...

Menina Inês =)

delicioso este circo de infância onde me levaste.
Por detrás de cada palavra há um lugar novo à espera de ser encontrado.
Obrigada por encantares este meu início de noite.

Dormirei descansada nos pés da trapezista de azul =)

beijo em ti*

Francis disse...

Há muito não ia ao circo.

Conseguiste-me transportar até ele e eu gostei, independentemente de haver pelo meio uma sinistralidade.
A vida nem sempre é feita de palmas, por vezes também o é de lágrimas.

Adorei!

PS. Não imagino como se pode fazer um backup do Blogue, se algum dia descobrir comunico.

inespimentel disse...

Carlos pelo menos os mártires já não são sacrificados em lugar público com os aplausos do imperador... quero ser optimista e por isso sou... estamos mal mas já estivemos pior, não lhe parece??
E sim, a trapezista ainda é a mesma e o fatinho azul ainda nos inspira compaixão e ternura.

inespimentel disse...

Margarete visitei com pressa um dos teus blogues, e senti um enorme desamparo. Dá-te mimos... se gostas de circo e puderes não deixes de ir ver o Cirque du Soleil,estará em Lisboa até 28 de Maio, vai concerteza animar-te a incr´´ivel beleza que alguns humanos conseguem criar
um beijo para ti

inespimentel disse...

Francis eu própria me senti a ir ao circo quando reli o texto... ainda bem que o consegui transmitir.

Siala ap Maeve disse...

Sabes, nunca gostei de Circo. Fui uma vez devia ter os meus 5 anos. Chorei ao ver os animais e trnsferi a raiva que sentia para os palhaços, que em vez de entenderem o que eu sentia (ou seriam eles palhaços? Ou mesmo os animais?)me tentavam fazer rir com as suas palhaçadas que eu já considerava futeis...
Nunca mais lá fui, nem os meus pais tentaram dada a minha reacção.
Do teu belíssimo texto fica-me a ideia que está a falar da Vida, em todos os seus tons e sons :)
Bom fim de semana!!

xistosa disse...

Não eram tules nem rendas azuis.

Era um biquini vermelho, em que á frente a parte superior, "encostava" á inferior.
Era tudo sobre o vermelho ...
O tempo falhou ... não havia chão.
Só o madeirame do circo.
Uma altura de morte.
Foi o que sucedeu ...
Passaram-se quase 52 anos ... nunca mais entrei num circo privado.
Morri no circo miniatura, mas continuo no circo-mundo-desta-vida!

FERNANDA & POEMAS disse...

Olá, votos de um belíssimo fim de semana...
Beijinhos de carinho,
Fernandinha

Templo do Giraldo disse...

Ola boa tarde meu carissimo amigo, passei por aqui para te desejar um resto de dia da revolução bem passado.

Hoje comemora-se os 34 anos de liberdade. É com orgulho que vivo este dia, embora eu não tenha vivido esse dia mas tenho familiares meus que estiveram na revolução.

Não podemos deixar cair no esquecimento este dia que tanto trouxe ao nosso País.
Abril é hoje e sempre, vamos continuar a lutar pelos nossos direitos, e pela nossa liberdade.

"O POVO UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO"

Um abraço saudoso e um bom fim de semana.

Filoxera disse...

Não foi a melhor forma de lembrar o circo; espero que consigas ter outras mais bem-sucedidas...
Hoje o Escrito a Quente comemora um ano e o 25/4. Se quiseres aparecer, lembrei-me de te reservar uma fatia de bolo.
Um beijo.

prafrente disse...

Você tem um geito especial para semear emoções, como quem semeia estrelas, no universo da vida.
Gostei da expressão " na lonjura da minha infância..." Não consigo evitar um certo arrepio que ela me provoca.Mas logo passa...e sigo em frente.

Bom fim de semana

xistosa disse...

É só uma passagem ... não para a outra margem, mas para um bom fim de semana!

inespimentel disse...

Siala acredito qua a maior parte das crinças tem MEDO do circo e até dos palhaços... acaba por ter o consolo de sair sem lá deixar nenhum bocado...o alívio pode confundir os pais... pensam que é alegria, mas não.


Xiatosa...fiquei confusa... o seu circo pareceu-me mais doloroso do que o meu... não entendi bem porquê nem o qunato real são essas recordações.

inespimentel disse...

Fernandinha e Giraldo obrigado pela vossa visita, são sempre bem vindos.

xistosa disse...

Só hoje, por acaso é que vi.

Não me recordo do nome do circo, era miúdo.

Gostava dos animais e dos trapezistas.
Uma, falhou ... e caiu no palco de madeira.
Nunca mais esqueço o som da morte.
Nunca mais entrei num circo, apesar de hoje, além de protecção inferior, "voam" agarrados á estrutura com segurança.
Daí deixar os circos, circos, mas manter-me no circo da vida...

inespimentel disse...

Pronto fiquei esclarecida.
Esse "baque" a que chama som da morte consigo eu ouvi-lo aqui, mesmo à distância dos anos.
Semeia uma inquietude inconfundível dentro de nós.
No meu caso nunca soube exactamente o que se passou... mas ficou a inquetude associada aos circos de tenda... os da vida cá vamos levando, na boa!

marta disse...

Eu gostava dos palhaços e daquela maneira de eles falarem, do tempo da nossa infância
"Miguelito vamos hacer una brincadura?"

e gostava também muito dos trapezistas, mas via-os sempre com as mãos entreabertas, nos olhos...

Felizmente nunca assisti a essa tragédia, mas lembro-me de ouvir falar dela.

o que me faz feliz

o que me faz feliz
o meu mundo ao contrário

O meu Farol

O meu Farol

A bela foto

A bela foto
o descanço dos meus olhos

A minha cama na relva

A minha cama na relva

O meu Algarve

O meu Algarve

...enquanto uns trabalham...

...enquanto uns trabalham...